quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Mão invisível"

Nunca como hoje, na Europa e no chamado Ocidente capitalista, se teve melhor percepção do conceito de “mão invisível”.

Algo está realmente mal e não funciona.
Será na economia?
São os mercados?
Não são.
São as pessoas.
Tudo se passa e se decide nesse “território” básico e natural da moral e da ética que é a pessoa humana.
O mais, são meros desenvolvimentos dessa realidade ontológica preliminar constitutiva.
Como pretender e reclamar uma economia saudável, se as pessoas que precisamente actuam no mercado e nos mercados não são sérias?

Como assegurar a vitalidade da família e o bom funcionamento dos sistemas públicos, da saúde à justiça, da regulação e da supervisão bancária à educação, se as pessoas subvertem, enganam e mentem, desviam e roubam, não zelam, não cumprem, não pagam, não se comprometem, não se esforçam, não amam, não cuidam do outro e abortam?
Os exemplos são múltiplos, mas relevam todos do mesmo sintoma de falha espiritual: do carácter (ou da falta dele), da alma, do bom propósito.

A lei positiva, por si só, não tem qualquer validade para além da meramente formal que resulta de um dado compromisso social no tempo e no espaço, se não for, rigorosamente, o reflexo de um conjunto de princípios e valores humanos imutáveis.
O verdadeiro sentido da “mão invisível” não está tanto no jogo no mercado da oferta e da procura.
São essas operações instrumentais, materiais.
A verdadeira, a única “mão invisível” está no ser e na pessoa boa, recta e responsável.
Mais de 30 anos de socialismo ateu e relativista em Portugal e na Europa deram nisto.
Não se queixem.

Mudem.

E já agora, quando se fala tanto de recursos e riquezas naturais que, supostamente, a Europa não tem: as pessoas bem formadas são os nossos diamantes.
E a nossa melhor energia, eternamente renovável, chama-se Jesus Cristo.

Miguel Alvim
Infovitae, 1550, 24.Nov.2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Incompreensível

Há muçulmanos que vieram viver para a Europa com os mesmos direitos dos europeus.
Aura Miguel
RR on-line 04-11-2011 6:20

No Iraque, é o contrário. Os cristãos não têm direitos, mesmo os que lá nasceram. Não gozam de liberdade religiosa, vivem sob ameaça e são constantemente alvo de violência. A pressão sobre eles é tão grande que, ao recusarem converter-se ao islão, arriscam a própria vida. Ou seja: estão na sua própria terra, são cristãos e morrem por causa disso.

Por cá, ao abrigo da chamada tolerância, os muçulmanos constroem mesquitas e manifestam-se como querem. E é assim que está certo: a defesa dos direitos humanos, nomeadamente, da liberdade religiosa deveria ser o melhor cartão de visita do Ocidente cristão. Então, porque não nos batemos pela reciprocidade? Se respeitamos em nossa casa os direitos dos muçulmanos, bem podiam os muçulmanos fazer o mesmo com os direitos dos cristãos.

Nestes dias, o grito dos nossos irmãos iraquianos brada aos nossos ouvidos, pela voz do Arcebispo de Kirkuk. Monsenhor Louis Sako está em Portugal para dar testemunho. Desde 2003 até agora, 54 igrejas foram atacadas e 905 cristãos perderam a vida. Os dados são alarmantes e revelam como está em risco o futuro dos cristãos no Iraque.

Mas igualmente grave é o desabafo com que Monsenhor Sako terminou a sua intervenção em Lisboa: “Francamente, não percebo como é que os cristãos na Europa são tão indiferentes e têm vergonha da nossa fé”.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vira-casacas

Os últimos tempos têm sido ilustrativos da irresponsabilidade com que muitos opinadores, comentadores e mesmo responsáveis políticos se comportam diante das dificuldades.
Raquel AbecasisRR on-line 31-10-2011 7:34

O caminho que temos que trilhar não é fácil, todos o sabíamos há muito tempo. Foi, aliás, por isso que o anterior ciclo político chegou ao fim depois de declarar Portugal incompetente para resolver sozinho os seus problemas. Nessa altura. o consenso era generalizado sobre a necessidade de mudar de vida, de fazer sacrifícios e de diminuir o célebre “monstro”.

Eis que, agora, alguns dos que mais calorosamente defenderam estas teses, diante da dura realidade, clamam “aqui d’el rei” - os sacrifícios são demais e o Governo é incompetente. Chegamos à conclusão de que os que emitem opinião se preocupam, sobretudo, em agradar e ser consensuais junto da população, com a irresponsabilidade inerente a quem não tem que tomar decisões, apenas temdo que as comentar.

Acresce que em, Portugal, começa a fazer caminho a ideia de que é comentador independente aquele que está disponível para criticar os que lhe são mais próximos política e ideologicamente.

Em bom português, é bom que se perceba que estes senhores não são mais do que “vira-casacas”, dispostos a mudar de opinião como quem muda de casaco, com um único objectivo: não de ajudar quem os ouve, mas de manter o seu posto nos diversos órgãos de comunicação social .

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Análise ao romance "O último segredo", de José Rodrigues dos Santos

Quando há cerca de trinta anos comecei a trabalhar na Faculdade de Letras de Lisboa, lecionei uma cadeira designada Introdução aos Estudos Literários. Era, então, consensual no meu Departamento (Estudos Anglo-Americanos), que nesta cadeira deveríamos proporcionar a descoberta dos diferentes géneros literários através de um diálogo com a História. Nesse sentido, começávamos com a leitura de textos fundadores e formadores da nossa matriz cultural, de Odisseia a Édipo Rei, de As Nuvens a O Rei Lea, para depois desvendarmos textos cronologicamente mais próximo de nós, como Mensagem ou A Terra Devastada, ou os fascinantes ecos dos poetas provençais em Ezra Pound. Dois dos textos por nós estudados no início do ano letivo, quer pela sua dimensão literária quer pela sua relevância no âmbito de uma cultura assente no logos, eram o Génesis eo Evangelho Segundo João.
Recordo o impacto que em mim teve a análise rigorosa dessa dimensão literária feita em The Art of Biblical Narrative, um livro que descobri no já distante ano de 1985, e que naturalmente partilhei com os meus alunos. Foi com alegria que vi confirmada a importância deste ensaio quando, há alguns anos, li a tese de doutoramento do padre José Tolentino Mendonça.
Através destes e doutros textos, quem passava por aquelas aulas compreendia a complexidade e a heterogeneidade dos diálogos que se foram concebendo ao longo dos séculos nos nossos horizontes culturais, e que envolviam aspetos tão diversos como a conceção cósmica clássica grego-romana, o racionalismo cristão, os ecos neo-pitagóricos no Renascimento, as convocações neo-platónicas nos Romantismos, a alquimia, o gnosticismo e esoterismos vários revisitando instantes estéticos do século XIX como a arte pré-rafaelita, e tantos outros aspetos que dão corpo à nossa identidade presente.
Recordo, por isso, que, ao ler um dos primeiros sucessos de Dan Brown, não pude deixar de pensar que qualquer antigo aluno meu identificaria as banalidades e equívocos ali exibidas; exibidas, diga-se, com o deslumbramento natural típico de quem nunca se deteve para compreender a complexidade da sua memória cultural coletiva.
Afinal, as grandes obras da cultura ocidental revisitam e questionam esses momentos fundadores, não raro numa tentativa de melhor compreender o presente em que se inscrevem. Os exemplos seriam infindáveis, por isso recordo apenas um livro de cabeceira meu, Moby-Dick. Aqui, numa aparente caça à baleia, é toda uma tradição judaico-cristã que se convoca. Da nomeação das personagens – Acab, Ismael, Elias, Raquel – às vertentes narrativas e simbólicas, essa tradição invade o romance determinando o seu rumo e até a sua resolução. Recorde-se que nas páginas inicias do livro surgem passos do Génesis, Jó, Jonas, Salmos e Isaías, e que será com uma epígrafe colhida em Jó 1 – 15 que ele termina. Neste romance, o autor, Herman Melville, exibe uma busca estética e intelectual, sustentada por uma rara erudição e por uma profunda investigação. No entanto, é com algum sentido de humor que ele entende as suas citações iniciais da História da nossa cultura como meras incursões de um sub, sub-bibliotecário. Apesar da sua erudição, o romancista/investigador exibe uma consciência face aos limites dos seus próprios conhecimentos.
A par deste encontro com o passado para melhor compreender o nosso presente, a lecionação que acima referi, recordava quão relevante era, para a formação de todos nós, em qualquer esfera de atividade, uma investigação rigorosa e intelectualmente honesta.
Um dos exemplos que tenho partilhado neste âmbito é o primeiro volume da obra de John P. Meier, A Marginal Jew - Rethinking the Historical Jesus. Com efeito, este volume, intitulado “The Roots of the Problem and the Person”, é um trabalho notável a nível de investigação e de rigor analítico, distinguindo com clareza espaços de reflexão como a História e a Teologia, sem, todavia, ignorar, os pontos em que ambos se cruzam. Não será, aliás, por acaso que a obra de Meier, para além de obviamente constar da bibliografia final, é destacada por Joseph Ratzinger/Bento XVI no primeiro volume de Jesus de Nazaré.
Porquê estas aparentes digressões prévias quando o meu objeto aqui é O Último Segredo?
Desde logo porque a sombra de Dan Brown paira ao longo de todo o romance de JRS.
Antes de prosseguir, importa referir que DB assenta o seu sucesso na conjugação de dois fatores: a escolha de um tópico sensacionalista, e uma eficiente estratégia narrativa. A escolha do tópico é fulcral a este nível. Da “mensagem cifrada” na Última Ceia, à simbologia e práticas maçónicas no espaço americano, é todo um universo esotérico que emerge, apelando a uma curiosidade algo naïve do público leitor. Digo naïve porque, como referi, qualquer antigo aluno dessas aulas de Introdução aos Estudos Literários de imediato desmontaria os “segredos” ali mencionados. Recorde-se que a presença da maçonaria nos primeiros anos da nação americana e a forma como ela se projetou na conceção arquitetónica de Washington, por exemplo, são dados que qualquer estudante de estudos americanos identifica.
Junte-se a essa dimensão esotérica a necessária dose de teoria da conspiração, e temos os ingredientes necessários para o sucesso.
No entanto, DB vai mais longe através da eficiente estratégia narrativa por ele concebida. E esta, importa esclarecer, é devedora de duas artes do século XX, o cinema e a banda desenhada. Tal como no cinema de Griffith, DB recorre à montagem paralela, fazendo alternar duas narrativas aparentemente distintas que, em determinado ponto, convergem. Tal como na BD, DB escreve cada capítulo como se de uma prancha se tratasse. Recordo, por exemplo, quando, na minha juventude, li O Enigma da Atlântida na revista TinTin, e como, no final de cada prancha, ficava em suspenso aguardando pelo número seguinte, e assim sucessivamente. Ora, também DB usa capítulos muito curtos que terminam com uma situação que fica por resolver; ainda o mistério. O facto de as narrativas serem intercaladas, faz com que a leitura se torne compulsiva, já que o leitor prossegue sempre em busca do mistério que ficou por relevar no final de cada capítulo.
Uma técnica obviamente eficiente, portanto! Mas que, apesar de todo um jargão pretensamente científico, o que ali está em causa são, afinal, livros de aventuras, não tenho dúvidas. Confesso que tive a felicidade de, na minha juventude, serem outras as modas, e de Emílio Salgari e Enid Blyton terem participado, então, do meu imaginário.
Hoje, restam apenas os seus banais imitadores!
Creio que este sucinta incursão pela obra de DB de imediato ilumina os ingredientes que dão corpo ao romance de JRS.
Tal como DB, também JRS recorre a um tópico apelativo. Desde logo, o título prima pela eficiência, convidando o leitor a partilhar com o autor a descoberta de algo de essencial. Aliás, este não é apenas um qualquer segredo, ou até mesmo o segredo, mas sim, o último. A leitura corresponderá, assim, a uma transformação radical do leitor. O conhecimento, quem não o deseja? Acresce a este aspeto a informação inicial de que “todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras.” Verdadeiras? O que significa? Um académico diria que eram rigorosas, ou que respeitavam as suas fontes. Enfim, minudências... Afinal, que mais se poderá exigir da leitura?
No plano formal, tal como DB, também JRS recorre às suas narrativas paralelas que, em determinado ponto, convergem. No entanto, enquanto DB opta por breves “pranchas”, JRS só na narrativa secundária recorre à prancha, já que a narrativa central, a da demanda policial, estende-se de uma forma particularmente dolorosa, embora, por vezes, hilariante. Porquê? Porque é através desta narrativa que JRS vai finalmente desmontar um equívoco que persiste na História da Humanidade desde há dois mil anos. “E se eu lhe disser que pelos vistos a Patrícia andava à caça dos erros do Novo Testamento? … “Não sabia? A Bíblia contém muitos erros. … São milhares de erros a infetar a Bíblia,' murmurou, 'incluindo fraudes'.” (p. 44) Seguir-se-ão infindáveis solilóquios ao longo dos quais o protagonista – alterego de JRS? - vai citar de memória inúmeros e extensos passos bíblicos, e ler outros tantos.
Solilóquios ou diálogos? Solilóquios, já que a interlocutora principal do protagonista – um historiador português –, uma atraente agente da polícia judiciária italiana funciona como mera ouvinte que, no seu espanto perante as revelações do iluminado português, se limita a fazer-lhe perguntas que permitirão a este último prosseguir na sua missão de desmontar o equívoco em que assenta a nossa civilização. Mas já lá vamos!
Refira-se, por fim, que, enquanto DB escolhia apenas um tópico que abordava sinteticamente, de modo a desenvolver a sua narrativa, já JRS revela uma ambição muito superior. Afinal, o seu objetivo é o de desmontar os fundamentos de toda uma civilização. É obra!
Tal como em DB, também aqui tudo começa à noite com um assassinato, cujo autor, tal como em DB, é um indivíduo misterioso pertencente a uma seita... secreta, pois claro. Um assassino que, no final de cada missão, entra em contacto com... exatamente, um misterioso mestre. Déjà vu? Não!
A Biblioteca do Vaticano, sim, a Biblioteca do Vaticano é um espaço privilegiado da ação. Depois, os nossos heróis – tal como em DB – viajam de um país para outro, sempre na senda dos crimes mais recentes, até, por fim, chegarem a Jerusalém onde nos aguarda a resolução do mistério. Por fim, tal como em DB, um mistério hermenêutico caminha a par de um mistério científico.
Acredito que este romance seja uma homenagem a DB, à forma como ele escolhe e aborda os temas, à sua estratégia narrativa, aos seus ritmos, aos seus espaços, aos seus processos de sedução do leitor. Com efeito, quem tenha lido um livro de DB de imediato reconhece tudo isso. Creio, aliás, que é perfeitamente legítimo escolher um romance para elogiar um romancista que se admira. Perturba-me, porém, a ausência de verosimilhança em O Último Segredo.
Como qualquer estudioso de literatura ou qualquer leitor atento sabem, a literatura não revela a verdade. A sua busca está entregue a outras disciplinas do saber. O que importa num romance, por exemplo, é que ele seja verosímil. Já Horácio, na Arte Poética, falava deste aspeto. Assim, O Senhor dos Anéis é verosímil, embora eu não esteja à espera de encontrar seres humanos pequeninos com pés descalços exageradamente grandes quando vou ao café, nem magos com bastões no centro de saúde. Sei que essas entidades existem apenas ali, no romance. E, todavia, não me passa pela cabeça dizer que o romance é mentira. Ele possui uma lógica e uma coerência internas que me fazem imergir na experiência de leitura, retirando prazer e, eventualmente, algum proveito pedagógico. Afinal, a luta entre o bem e o mal também perpassa por aquelas páginas.
Ora, como referi, é exatamente no plano da verosimilhança que este O Último Segredo me perturba. Desde logo, pelo protagonista.
É obviamente simpático, numa altura de depressão nacional, que um herói português lidere uma operação internacional que pretende desvendar esse derradeiro segredo. No entanto, qual é o perfil deste herói? Sabemos tratar-se de um historiador da Universidade Nova de Lisboa que é consultor da Fundação Gulbenkian. Até aqui tudo bem, mas... qualquer académico sabe que os historiadores são especialistas em áreas. Dificilmente um especialista em História Contemporânea lerá aramaico, por exemplo. Em que área é especialista o Tomás Noronha? Não sendo ele arqueólogo, por que razão está ele a trabalhar numas ruínas em Roma? Porque é conselheiro da Gulbenkian. Mas conselheiro de quê?
Tomás Noronha é, afinal, alguém que aparece “quando se fala em livros antigos...” (p. 21) “Trajano deu-nos esta obra maravilhosa e o senhor está a ajudar-nos a recuperá-la.” (p. 22) “Trabalhos de peritagem” (p. 36) Em quê? Como? Porquê? Com efeito, a figura do historiador é útil, visto conferir uma legitimidade e um estatuto a nível do saber que serão necessários à explanação da agenda em causa, a teoria conspiratória em que o romance assenta. É demasiado vago, porém. Estamos, assim, perante uma personagem que, embora não nasça do nada, possui uma muito vaga configuração. Ou seja, uma personagem pouco verosímil no início que, posteriormente, se revela um especialista em estudos bíblicos, nomeadamente pela forma como cita de memória extensíssimos passos da Bíblia. Mas sê-lo-á mesmo? “Sabe, a minha especialidade é a história...” (p. 386) Qual? De quê? Demasiado pobre para um historiador, admita-se.
De duvidosa verosimilhança é igualmente a configuração da personagem feminina. Sendo ela uma mulher jovem, dinâmica, com um estatuto relevante num mundo dominado por homens, como se compreende que reaja perante as elucubrações iluminadas do nosso conterrâneo como se de uma adolescente deslumbrada se tratasse. Como é que ela, tendo sido educada numa cultura católica que ela, aliás, assume, fica algo aparvalhada quando ele lhe revela o que eram as Epístolas: “'... eram simples cartas.' 'Como os emails que trocamos hoje em dia?' Tomás riu-se. … 'E os Evangelhos surgiram também em cartas?' … 'Ah!', exclamou a inspetora. 'E foi assim que os Evangelhos foram escritos.” (pp. 62 e 63) Uma mulher pateta que, apesar de católica, ignora questões básicas da doutrina que professa, está, assim, a ser elucidada por este universitário esclarecido.
Mais adiante ser-lhe-á revelado o “verdadeiro” significado do Pai Nosso. Ela, naturalmente, responde perplexa: “É curioso, nunca tinha reparado nisto.” E acrescenta: “Mamma mia! Da próxima vez que rezar vou prestar mais atenção ao que digo!...” (p. 317)
Este é apenas um dos muitos passos que seriam hilariantes, não fosse ele sinal de uma misoginía confrangedora. “Mas como é possível que eu nunca tenha ouvido estas coisas na missa?” (p. 110) Coitada! Quão ignorantes são estas mulheres emancipadas!
De duvidosa verosimilhança é, também, a forma como os diálogos/solilóquios se arrastam em situações de grande tensão e ação iminente. Dificilmente se acreditará que numa cena de crime, a inspetora cesse a sua atividade para ouvir passivamente uma longa dissertação sobre hermenêutica. Dificilmente se compreende que, apesar de estarem prestes a serem devorados pelas chamas, o historiador não prescinda de fazer as suas dissertações teóricas. Dificilmente se compreende que alguém que tem uma arma branca encostada ao pescoço confidencie ao seu atacante: “Oiça ...vamos conversar.” (p. 288) Se fosse o James Bond, talvez. Agora, um historiador, mesmo sendo português, não creio.
Para não falar das viagens que se sucedem sem que exista um nexo explícito e que justifique a liderança da investigação por parte da judiciária italiana quando outras jurisdições estão em causa.
Para não falar da presença e do protagonismo do nosso conterrâneo em todas estas deambulações; ou da forma como ele exibe a sua Bíblia sempre que é necessário confirmar uma tese (não me parece muito verosímil que um vulgar cidadão ande sempre com uma Bíblia consigo!).
Para não falar, acima de tudo, do facto de o historiador conseguir liquidar um indivíduo treinado nas forças especiais israelitas: “uma vez infiltrou-se sozinho numa gruta e, armado apenas com uma faca de mato, eliminou um pelotão inteiro de mudjahein.” (p. 517) Ora, neste caso, “o que salvou Tomás foi um misto de intuição, comportamento preventivo e reflexos rápidos.” (p. 520) Uma receita que, por certo, nenhum dos mudjahein tinha... Confesso que conheço muitos historiadores, mas não creio que nenhum deles fosse capaz de semelhante proeza!
Poder-se-ia falar ainda de uma certa “ligeireza” na evocação histórica; por exemplo, “Jesus admite que gostava da pingoleta e que era um bom valente garfo!” (p. 271) “ele [Jesus] veio das berças! … onde só havia pacóvios.” (p. 278) “Jesus e seus apóstolos. Ou seja, um bando de provincianos. … Como eram cegos aqueles labregos!” (p. 339) Se esta é a forma de um erudito abordar um tópico da sua especialidade, então estamos falados!
O delírio está, todavia, reservado para o final: o ADN de Cristo foi recuperado e Ele será objeto de clonagem. E mais não digo!
Não pude evitar de soltar uma gargalhada quando cheguei a este passo. Um dos meus filhos que passou nessa altura pelo escritório, perguntou-me por que razão estava eu a rir. Expliquei-lhe porquê e ele retorquiu: “Não é verdade! Estás a brincar!” Assegurei-lhe que era verdade, isto é, era o que eu tinha lido. E ele acrescentou: “Mas isso é Dan Brown for dummies!” Dan Brown para tontos, portanto.Considerando que apesar da destruição final, ainda “sobreviveram dois tubos de ensaio”, fica aberto o caminho para uma sequela.

Mário Avelar
Professor catedrático de Estudos Anglo-Americanos

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Uma imitação requentada

O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.

1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.
Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.

2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX, por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.

3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está texto repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.

4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada, superficial e maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.

(O romance "O último segredo", de José Rodrigues dos Santos numa nota do Secretariado Nacional a Pastoral da Cultura)

domingo, 23 de outubro de 2011

Sê...

"Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Para ser grande, sê inteiro.
Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive...."

(Fernando Pessoa)

sábado, 1 de outubro de 2011

Mundo a mais

A Igreja tem mundo a mais e conversão a menos.A frase caiu que nem uma bomba, durante a visita do Papa à Alemanha: com o passar dos anos, a fé dá lugar à rotina, a estrutura esmaga o espírito, uma certa “fachada cristã” bloqueia o acesso à bondade de Deus, os critérios mundanos tomam conta do coração, os fardos do poder e das coisas materiais distorcem as verdadeiras prioridades... E, assim, gradualmente, a Igreja cai na tentação de se achar auto-suficiente.

Mas a Igreja sem Deus não existe. Por isso, precisa de se converter.

Só que, como o próprio Bento XVI também alertou, a Igreja não é só o Papa, os bispos e os pastores. A Igreja somos todos nós. Por isso, somos todos nós que temos mundo a mais e conversão a menos!

(RR on-linr 30-09-2011 8:41 por Aura Miguel)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um Estado que proíbe a cruz na parede também não é neutro

Judeu convicto, especialista em Direito Constitucional, Joseph Weiler defendeu perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos o direito de a Itália ter crucifixos nas paredes das escolas e o direito da França a não os ter. E diz que esse pluralismo europeu é que é bom. Ganhou por 15-2



Tinha acabado cinco horas de aulas, pediu apenas um prato de batatas fritas, que foi petiscando enquanto conversava. Joseph Weiler, nascido em 1951, é um judeu convicto. O que não o impediu de defender a possibilidade de haver (ou não) crucifixos nas paredes das escolas. Virou a opinião do tribunal, dos anteriores 17 a favor de retirar os símbolos religiosos da parede, para uns claríssimos 15 contra. Apenas dois juízes mantiveram a decisão anterior. E adverte: nem a Itália nem a França são neutros em matéria religiosa. Mas ambos devem educar para o pluralismo.

Especialista em Direito Constitucional europeu, Weiler é professor da Católica Global School of Law, da Universidade Católica Portuguesa, e, por isso, vem a Portugal várias vezes por ano.

Tem publicado Uma Europa Cristã (ed. Princípia). E publicará, até final do ano, um livro sobre o processo que condenou Jesus à morte. Nele defende que "o sentido de justiça, na civilização ocidental, provém do julgamento de Jesus", explica ao P2. O Papa disse, no seu último livro, que os judeus não foram responsáveis pela morte de Jesus. Weiler, judeu, irá dizer o contrário. E explicar porquê.

Defendeu o crucifixo nas salas de aula italianas...

Tive uma vitória famosa, 15-2...

Defendeu essa posição como jurista ou como judeu e crente, em solidariedade com outra fé?

Depois da decisão, recebi centenas de emails. Muitos diziam "obrigado por defender o crucifixo". Muitos outros, vindos da comunidade judaica, perguntavam: "Como pode o filho de um rabi defender o crucifixo?" A todos, aos que me felicitavam ou que me condenavam, respondi o mesmo: "Não defendi o crucifixo. Defendi o direito da Itália a ser Itália e o direito de França, onde a cruz é proibida, a ser a França."

Ou seja, a possibilidade de leis diferentes...

Acredito no valor do pluralismo nas relações entre a Igreja e o Estado, que existe na Europa, onde temos vários modelos: o modelo francês, o britânico, o alemão, etc. Isso é parte da força da civilização europeia. A decisão da câmara, por 17 contra zero, dizendo que a Itália estava a violar a Convenção Europeia por ter uma cruz nas salas de aula, parecia-me tão drástica que forçaria todos a ser como França. Isso parecia-me completamente contra o pluralismo e tolerância que existe na Europa.

E escreveu o editorial no European Journal of International Law...

Sim. Dizendo que era uma decisão terrível. Como podia o tribunal decidir que a tradição na Grã-Bretanha, na Alemanha, em Malta, na Grécia ou na Dinamarca era contra os direitos humanos e a Convenção Europeia de Direitos Humanos? Perguntaram-me se queria ir ao tribunal. Concordei, com uma condição: seria pro bono, não queria que dissessem: "Olha o judeu, por dinheiro até é capaz de defender a cruz". [ri] Decidi fazê-lo, porque acreditava que era a atitude certa.

Não foi só a Itália a defender essa posição.

Oito estados intervieram, convidando-me. A Itália defendeu a própria posição. O facto de ser judeu é irrelevante. Sou constitucionalista praticante e tal parecia-me errado, no âmbito da Convenção Europeia de Direitos Humanos. Há duas coisas mais importantes, que me parecem erradas, no âmbito da Convenção e que me ajudaram a reagir: estou verdadeiramente cansado do argumento, repetido à exaustão, de que o Estado é neutro, em matéria religiosa, quando não permite o crucifixo na parede.

E não é assim?

Tentei convencer a câmara de que esse é um argumento errado. Se o Estado quer que a cruz esteja na parede, não é neutro. De certa maneira, é tomar uma posição sobre a importância do cristianismo na identidade do país. Ou seja, há algo na identidade do país que se quer valorizar com a cruz na parede e essa não é uma posição neutral.

Mas quando o Estado, como em França, proíbe a cruz, não está a ser neutro. Porque não há uma parede nua, vazia. Qualquer coisa pode ser colocada na parede: se amanhã houver uma maioria comunista, podem dizer que em todas as escolas tem que haver uma foice e um martelo.

Podem?

Sim, e não há nada na Constituição que o impeça: pode ter uma fotografia de Karl Marx na parede, pode ter um sinal de paz, uma posição ecológica... De facto, em todas as escolas primárias de França, está escrito: Liberté, egalité, fraternité - o slogan mobilizador da Revolução Francesa.

Eu gosto disso, mas não é neutral. Se for monárquico, não é neutro, seguramente. Qualquer símbolo é permitido nas paredes: Karl Marx e Groucho Marx; o sinal de paz, a foice e o martelo, o símbolo "nuclear não". Há apenas um que não é permitido: a cruz, um símbolo religioso. Como é que isso é neutro?

Nem a estrela de David nem o crescente islâmico...

Sim... As crianças podem ir para a escola e usar uma t-shirt com uma fotografia de Che Guevara, podem ter escrito Love and Peace, podem ter um insulto a George Bush, qualquer posição política ou ecológica, podem levar o triângulo cor-de-rosa pelos direitos dos gays. A única coisa que não podem levar é a cruz, a estrela de David e o crescente.

Nem podem vestir o chador...

Não... Isso não é ser neutro, é dar uma mensagem clara às crianças: tudo é permitido, excepto um símbolo religioso.

Na minha arguição, não disse que a França viola a Convenção Europeia por ter essa regra. Na tradição europeia, o Estado laico é uma opção respeitável. Mas não pretendam que seja neutro. Ele diz que tudo é permitido, excepto a cruz ou a estrela de David, e está a dar uma mensagem sobre religião.

No sistema italiano, apesar da cruz, há um dever educacional de respeitar os ateus e outras religiões. No sistema francês, onde se proíbe a cruz nas paredes mas se permite tudo o resto, há o dever de explicar aos estudantes que, apesar de se permitirem todos os símbolos excepto os religiosos, se deve ensinar o respeito pelos crentes. Nenhum dos sistemas é neutro. Em ambos está implícita uma espécie de preconceito. E em ambos é tarefa do sistema educativo contrabalançar as coisas para que a escola não ensine o preconceito mas a tolerância.

Esse era o seu primeiro argumento...

O segundo era: acreditamos na autodeterminação como direito fundamental. Acreditamos no direito de os britânicos serem britânicos e de os irlandeses serem irlandeses. A razão por que temos a Irlanda independente da Grã-Bretanha, em 1921, é porque os irlandeses são diferentes dos ingleses.

Como podemos imaginar a identidade irlandesa sem o catolicismo? No preâmbulo da Constituição irlandesa, diz: "Acreditamos que o Divino Senhor Jesus Cristo é a fonte de todo o dever, justiça e verdade." Isto é o que são os irlandeses. O que vamos dizer-lhes? Não permitimos um sentido de nacionalidade que tem um tal conteúdo religioso?

O que é bonito na Europa, mesmo apesar da Constituição irlandesa, é que não há discriminação por causa da religião. Um judeu pode ser primeiro-ministro. Como um muçulmano ou um ateu. E aceitará que é impossível falar da identidade irlandesa sem o catolicismo e a cruz. Para o bem e o mal.

Mas é possível também que as sociedades mudem?

Mas compete às sociedades mudar. Na minha arguição - que é curta, eu só tinha 20 minutos -, dizia que, se um dia os ingleses decidirem deixar de ter o Anglicanismo como religião oficial, podem fazê-lo. Não é um país religioso, a maior parte dos britânicos não é religiosa. Mas faz parte da sua identidade.

Os suecos mudaram a Constituição e decidiram que a Igreja Luterana deixaria de ser a religião estabelecida no país. Mas foram eles que definiram a sua identidade sueca, não foi Estrasburgo. Não compete a Estrasburgo dizer que eles não podem ter uma cruz na bandeira. Eles deixaram de ter a Igreja oficial mas mantiveram a obrigação de o rei ser um luterano. O símbolo do Estado tem que ser um luterano.

Na sua arguição, afirmou também que este é um conflito entre o direito individual e o Estado. No caso italiano, tratou-se precisamente de uma mãe ofendida pela presença da cruz...

Em muitos casos, temos um conflito entre diferentes direitos fundamentais. O hino nacional inglês é uma oração: "God Save the Queen", dá-lhe vitórias e glórias. Na escola, canta-se o hino nacional. E se houver um estudante que diz "sou ateu, não creio em Deus e não quero cantar uma oração"? O direito individual estará comprometido se a escola forçar esse estudante a cantar o hino nacional e se o ameaçar de expulsão. Ninguém pode ser forçado a fazer um acto religioso, uma oração, mesmo quando não acredita...

Pode ser um republicano...

Claro, não tem que dizer "Deus salve a rainha". Isso eu aceito. Mas não aceito que esse estudante ou a sua mãe digam que mais ninguém deve cantar o hino. É um compromisso simpático: ele tem o direito de ficar em silêncio, os outros o direito de cantar. E todos têm direito à liberdade religiosa.

A minha mãe cresceu no Congo Belga. A única escola para brancos era um convento católico. Os pais dela fizeram um acordo com as freiras: cada vez que elas dissessem Jesus, a minha mãe diria Moisés. É um bom compromisso.

Não podemos permitir que a liberdade de [ter ou não] religião ponha em causa a liberdade religiosa. Temos que descobrir a via média. E essa é dizer não, se alguém quiser forçar outro a beijar ou a genuflectir perante a cruz. Mas, se houver uma cruz na parede, direi aos meus filhos que vivemos num país cristão. Somos acolhidos, não somos discriminados. A Dinamarca tem uma cruz na bandeira, a Inglaterra e a Grécia igual. Vamos pedir que, por causa da liberdade religiosa, tirem a cruz das bandeiras? Absurdo!...

É por causa disso que fala de argumentos iliberais?

Sim, porque o ponto de vista liberal é, muitas vezes, iliberal. As pessoas falam de liberdade religiosa, mas, de facto, muitas vezes é cristofobia. Não é neutralidade, é antes porque não gostam do cristianismo e da Igreja. Sei porquê: a Igreja tem uma história complicada...

É também por causa disso?

Claro. Compreendo, mas não devemos mascarar os factos. Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas são religiosas, outras não. A questão é como vivemos juntos. Não podemos pretender que, se negarmos todas as religiões no espaço público, isso é neutro. É o que faz a França, mas não é o único modo de o fazer.

Então deveria ser possível ter uma cruz na sala de aula e educar os estudantes para o pluralismo?

Absolutamente. Seria uma lição de pluralismo. Porque diríamos: apesar de ter uma cruz na sala de aula ou uma cruz nas bandeiras, permitimos que um primeiro-ministro seja muçulmano ou judeu. A Itália teve primeiros-ministros, generais e ministros judeus.

Na Grã-Bretanha, o chefe de Estado é o chefe da Igreja, há uma Igreja de Estado, o hino nacional é uma oração. Quem diria que o país não é tolerante? É o país de eleição para muitos muçulmanos emigrantes. O facto de haver uma identidade religiosa e uma prática de não-discriminação é um sinal de uma sociedade pluralista e tolerante.

De certa maneira, a Grã-Bretanha com a cruz é mais pluralista e tolerante do que a França, sem a cruz. Porque na Grã-Bretanha, apesar de afirmar a identidade religiosa do Estado, é não discriminatória em todos os aspectos da vida. Financia escolas anglicanas, mas também católicas, judias, muçulmanas e seculares. Os países laicos financiam escolas seculares, mas não escolas religiosas. Quem é mais tolerante e pluralista?

Evocou a herança cristã da Europa, debatida a propósito da Constituição Europeia. Se ela tivesse avançado, também devia referir a herança judaica e muçulmana e a Revolução Francesa?

Deveria ter uma referência às raízes cristãs.

E judaicas e muçulmanas. Na Península Ibérica, por exemplo...

Na Europa, também há vegetarianos. É uma questão de grau. Temos que mencionar judeus, muçulmanos, baha"ís? Eu também falaria de raízes judaicas e muçulmanas na cultura hispânica. Mas, na Europa, a maior parte é cristã. Não falaria de raízes cristãs no Egipto, mesmo havendo uma minoria cristã no país.

De um ponto de vista cultural, o cristianismo jogou um papel decisivo na definição da civilização europeia. Para o bem e para o mal. As raízes cristãs são também a Inquisição, judeus queimados. Quando eliminamos as raízes cristãs, obliteramos também a memória das coisas más que a cristandade fez.

Não há uma cidade na Europa sem uma catedral, onde o museu não esteja cheio de pintura sacra. E os direitos humanos não derivam apenas da Revolução Francesa, derivam da tradição judaico-cristã. Porque queremos negar isso? O que se vê no Prado, no Museu Gulbenkian? Madonna con bambino... Isso não é a Europa? É um absurdo.

É possível coexistir a laicidade francesa e outros modelos?

Claro, essa é a riqueza da Europa. A Europa lidera pelo exemplo, não pela força. Gostaríamos que por todo o mundo houvesse democracias pluralistas e tolerantes. Que possibilidades há de persuadir alguns países muçulmanos a abraçar o pluralismo se dissermos que a religião deve ficar na esfera privada?

Podemos dizer à Arábia Saudita: podem tornar-se uma democracia, reconhecer os direitos humanos e manter a vossa identidade muçulmana. Reparem no que se passa na Grã-Bretanha, reparem no pluralismo europeu: há um modelo francês, um britânico, um grego. Não somos apenas como os franceses.

Tem amigos entre os católicos conservadores, mas também defende os direitos dos homossexuais, o que não é simpático para esses católicos...

Que posso eu fazer? Vieram ter comigo, quando começaram a falar dos direitos dos homossexuais. A questão não era o casamento homossexual, mas porque têm os homossexuais de ser discriminados? Não há razão para isso.

Mesmo hoje, ensino os meus alunos como crente, mas digo-lhes: ninguém deve perder o emprego por ser homossexual, a ninguém deve ser negado alojamento por ser homossexual. Nos campos nazis, exterminaram os judeus e os homossexuais. Não posso esquecer isso.


Público, 2011-09-27 Entrevista de António Marujo a Joseph Weiler

sábado, 24 de setembro de 2011

A Igreja que nos pertence...

A decisão de permanecer ou não na Igreja é, disse ontem Bento XVI, uma questão de vida ou de morte.

Alguns olham para a Igreja apenas exteriormente, como se fosse uma multinacional. Outros consideram-na com certos interesses, como se fosse uma associação desportiva ou cultural e quando esses interesses não se realizam, criticam-na.
Seria bom, disse ontem o Papa, em Berlim, que os descontentes se interrogassem sobre o que significa pertencer à Igreja. É que pertencer verdadeiramente significa permanecer em Cristo, mesmo quando isso custa, quando é difícil e até contrário aos nossos planos. Porque na Igreja haverá sempre peixes bons e maus, haverá trigo e joio, misturados, mas Cristo é a garantia de vida e ele nunca nos abandona, garantiu Bento XVI.
A nós, compete optar se queremos permanecer nele ou não. O Papa recordou ainda como Cristo é a videira e nós os ramos. Fora dela, os ramos secam e morrem. É mesmo uma opção de vida ou de morte.

Aura Miguel
RR on-line 23-09-2011 12:51

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leila Lopes e Deus criador...

Lopes quando questionada sobre uma característica que ela mudaria se
pudesse, ela respondeu que ela está muito satisfeita com a beleza que
Deus lhe deu.

“Graças a Deus estou muito satisfeita com a maneira como Deus me criou
e eu não mudaria nada”, disse Lopes. “Eu me considero uma mulher
dotada de beleza interior. Eu adquiri muitos princípios maravilhosos
da minha família e eu pretendo seguir estes para o resto da minha
vida”.

Lopes disse que ela nunca fez uma cirurgia estética e confessou que
suas dicas de beleza foram: usar protetor solar muitas vezes, dormir
bastante, e beber muita água.

Agora, a vencedora diz que ela tem trabalho a fazer e que ela pode
fazer muito mais depois de vencer a competição. “Eu acho que agora
como Miss Universo eu serei capaz de fazer muito mais”.

Leila Lopes espera ajudar as pessoas na Angola e disse que pretende
lutar contra o HIV em todo o mundo. A modelo angolano também disse que
vai trabalhar com “humildade e manter meus pés no chão”.

“Eu já trabalhei com várias causas sociais. Eu trabalho com crianças
pobres, eu trabalho na luta contra o HIV. Eu trabalho para proteger os
idosos e tenho que fazer tudo o que o meu país precisa”, disse ela.

A nova Miss Universo cativou o público não só com sua beleza, mas
também com sua forma de vida responsável e humilde. “Ela cativou o
público e todos nós estávamos atrás dela”, disse a brasileira Natalie
Bursztyn, 20 anos, que estava na platéia dentro Credicard Hall.

“Foi ótimo que os juízes também viram o que os fãs viram e lhe deram a
coroa. Seu vestido era lindo e ela sabia exatamente o que dizer quando
perguntaram-lhe sobre sua aparência”, acrescentou Bursztyn.

Com a vitória de Leila Lopes, a República da Angola conquistou o
terceiro título de Miss Universo da África.

Fonte: The Christian Post (2011.09.13)