sexta-feira, 13 de junho de 2014

O crucifixo não ofende ninguém, mas inquieta...

Nestes últimos tempos, pela Europa, principalmente, temos assistido a movimentos contra manifestações religiosas, principalmente contra o Cristianismo.
Surgiu, nos vários artigos desta temática uma palavra que expressa bem o tempo em que vivemos: CRISTOFOBIA. Porquê?
Será que Cristo mete medo ou temos medo de nos comprometer em Cristo? É que Cristo incomoda. Vemos isso nas acções deste Papa Francisco. É frontal, mas também carinhoso para com os pecadores. Tal como Cristo o foi.
Nesta manhã, estes pensamentos apareceram, pois deparei com uma referência de um movimento contra a presença de crucifixos nos hospitais. Uma extensão da acção para a eliminação da presença do crucificado em lugares públicos, pois dizem é um atentado contra a liberdade de expressão...
Eis o documento:

Cristo molesta. Su imagen en la cruz puede causar infecciones, graves enfermedades, serios problemas de salud. Eso dice Compromís, una coalición formada por nacionalistas y comunistas que exige la retirada de los crucifijos de las habitaciones de los hospitales y si tú y yo no lo evitamos, va a presentar una moción en las Cortes valencianas para borrar la Cruz del espacio público. 
Pide al director del hospital donde se ha iniciado esta campaña, en Castellón, que no ceda a esta nueva ofensiva contra los símbolos religiosos de la mayoría.
Sabes que si lo consiguen, después de Castellón vendrá Valencia, y luego Barcelona, y luego Madrid... y el resto de España.
Dice el partido que encabeza esta campaña contra los creyentes (y cuenta con representación en el Congreso de los Diputados) que los enfermos de los hospitales no deben ver "un cuerpo semidesnudo, famélico y lleno de heridas clavado en una cruz".
Ningún paciente se ha quejado por la presencia de crucifijos en las habitaciones. Tampoco lo han hecho los médicos, ni las enfermeras, ni nadie. Solo ese grupo político que quiere acabar con los símbolos religiosos de la mayoría pasando por encima de la voluntad de esa misma mayoría.
Para este grupo de nombre tan inadecuado, Compromís (Compromiso), la simple presencia del crucifijo es ofensiva y con su propuesta de barrer todos los símbolos religiosos buscan fustigar a los creyentes, expulsarnos de la vida pública. Porque para construir el mundo que pretenden imponernos, la imagen de Cristo es un obstáculo insalvable y necesitan derribarla a cualquier precio.
Compromís va a presentar una moción en las Cortes Valencianas por la retirada de los crucifijos del Hospital Provincial de Castellón. Y continuarán persiguiendo cualquier manifestación de religiosidad hasta arrinconarla definitivamente. Depende de ti y de mi, de todos nosotros, plantarles cara y defender nuestras creencias.

Segue a hipotética carta para o director do hospital: 
Dr. Rafael Arce, director gerente:

He sabido que, desde determinados sectores, se está exigiendo la retirada de los crucifijos que hay en las habitaciones del Hospital Provincial de Castellón que usted dirige por considerar que resultan ofensivos y que atentan contra la aconfesionalidad del Estado.

Con todo respeto, le pido que no ceda al chantaje del laicismo intolerante que pretende expulsar del espacio hospitalario un símbolo no sólo profundamente venerado y respetado por los creyentes, en el que, además, muchos encuentran consuelo en la enfermedad, sino un elemento indiscutible de nuestra identidad cultural cristiana.

Tengo la seguridad de que sabrá usted hacer frente a esta pretensión intolerante. Si es así, le doy las gracias anticipadas por defender la razón frente a la intransigencia.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Liderança...

Liderança Inaciana, segundo Adolfo Nicolás, sj, Padre geral da Companhia de Jesus.
Passou por Portugal e em Coimbra, onde não deixei de ir.

Na sua intervenção, começou por apresentar três características da Liderança, de ser líder: ser Espiritual (partir do coração, do interior), ser Sábio (capacidade de discernir) e ser Prático (ao serviço de uma missão concreta).

Mais alguns tópicos...

Uma condição si ne qua non para ser líder: é aquele que vê o futuro.

O líder não pode funcionar só - only/lonely in the top. Lider tem de ser com e em equipa. Expressa melhor em verbos activos que em substantivos. (um olhar sobre os escritos paulinos, onde temos mais de 800 verbos... que indicam acção.

Procurar dar poder aos outros, principalmente através da formação. Haver programas de formação para capacitar um serviço melhor para o mundo, comunidade... As comunidades funcionam bem em liberdade, sendo este aspecto um ponto débil para qualquer instituição. Quanto mais respeito a liberdade do outro, maior é a qualidade, criatividade e responsabilidade. Grupo que não é livre, dificilmente é criativo.

O líder deve ter claridade nos valores que quer propor. Ter um Know how. Supõe-se que o líder estuda, ter uma visão de futuro, saber com quem trabalha, construir boas relações, crescendo através de interacção. Tem de ser credível.

O líder deve ter cinco qualidades para ser um bom líder: Focado (sabe o que quer); Flexível; Fast (actua com rapidez, mas não precipitado, pois as decisões têm de ser maduras); Friendly (amigável); e Fun (divertido). Fun, pois o líder tem de ter capacidade de saber rir-se de si próprio. O sentido de humor, humaniza.
"As pessoas que não têm sentido de humor, não tem alma"
Um sexta característica, Funcional, isto é, o líder tem de ter capacidade de colocar em prática o que aprendeu.

Sintetizando, algumas funções fundamentais do líder: pensar e discernir, e para isso necessita de tempo; animar e inspirar.

Mais algumas ideias...
A educação é o aspecto mais importante do mundo, e passa não só pelas crianças, jovens... mas também pais, políticos, professores.
O lider que não sabe relacionar seu coração com a realidade, não é bom líder. Deve relacionar-se com todo o seu ser.
A criatividade é um elemento importante, "capaz de acompanhar, buscando...
"Deve questionar-se e a pergunta já contém metade da resposta. Uma boa pergunta faz pensar, obriga a pensar.

E agora?


terça-feira, 27 de maio de 2014

Bibliografia mariana

"O próprio caminho humano, na história do Ocidente, tomou múltiplas vezes, [...] como guia a Mãe de Deus, assumida como estrela do caminho quer do peregrino, quer de romeiro, quer do viajante."(in Caminhos Marianos)

Ser peregrino é um estado de alma. Faz parte do ser humano. É intrínseco na natureza humana, por sentirmos, no fundo, que não somos de cá.

É neste contexto que surge esta monografia, Caminhos Marianos, que é um roteiro pelos locais de culto a Maria, em Portugal. Serve de auxílio neste caminhar, neste ser peregrino.

São quinze roteiros, de norte a sul, propostos: entre Caminha e Lousada, entre Matosinhos e Oliveira de Azeméis, entre Montalegre e Miranda do Douro, [...] entre Leiria e a Lourinhã, Lisboa e Mafra, Alcochete e Almada, Aljezur e Lagoa, Castro Marim e Loulé...

Um bom auxílio, para quem se propõe fazer caminhos marianos...

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Alegria

Hoje ao começar o dia, surgiu-me o tema da alegria...
Perante a vida, por vezes, cheia de dificuldades, será que a alegria permanece?
Transcrevo o texto, baseado no Evangelho de João 15, 9-11.

O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria. Apenas alguns exemplos: «Alegra-te» é a saudação do anjo a Maria (Lc 1,28). A visita de Maria a Isabel faz com que João salte de alegria no ventre de sua mãe (cf Lc 1,41). No seu cântico, Maria proclama: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1,47). E, quando Jesus começa o seu ministério, João exclama: «Esta é a minha alegria! E tornou-se completa!» (Jo 3,29). O próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo» (Lc 10,21). A sua mensagem é fonte de alegria: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15,11). A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus discípulos: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria» (Jo 16,20). E insiste: «Eu hei-de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16,22). Depois, ao verem-No ressuscitado, «encheram-se de alegria» (Jo 20,20). […] Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? […] 

Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, apesar de tudo, sermos infinitamente amados. Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias: «A paz foi desterrada da minha alma, já nem sei o que é a felicidade […]. Isto, porém, guardo no meu coração; por isso, mantenho a esperança. É que a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova; é grande a tua fidelidade. [...] Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor» (Lm 3, 17.21-23.26).


Boa leitura!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Consagração... na Biblioteca do SF

Neste tempo de peregrinação – a Peregrinação Aniversaria de Maio -, chegou à Biblioteca do Santuário de Fátima, um novo livro, A Consagração como dedicação na Mensagem de Fátima.

Fala da Consagração, pretendendo-se neste livro “alargar o horizonte e não restringir a temática, o pedido que Nossa Senhora fez aos Pastorinhos apenas à consagração ao seu Imaculado Coração.
Consagrar, etimologicamente significa “tornar sagrado junto de”, no fundo “ser como Deus”, “tornar-me divino”, “dedicar-me a”. Tomando a palavra de um dos seus autores, “a consagração é propriamente o ato de tornar sagrado uma coisa ou uma pessoa, isto é, introduzi-la numa ordem à parte, afetá-la de uma caráter que a subtrai às apreciações e ao uso comum.(Joseph De Finance, p.85).

De facto, as palavras Consagração e dedicação relacionam-se.

O livro é uma recolha, pequena antologia de dez contributos sobre este tema, dos quais, o texto, A consagração em Israel e do novo Israel segundo a tradição bíblica, de José Carlos Carvalho, que também é o coordenador da edição, é inédito. Os outros textos têm como autores, Karl Rahner, Stefano De Fiores, J. Jost, João Duque entre outros.

A consagração no povo de Israel, nas Congregações Marianas, de cada um de nós, do mundo, de Portugal, perpassando pelo papel do Imaculado Coração de Maria são algumas temáticas, que estes autores nos vão ajudar aprofundar.


Desejo-vos uma boa leitura.

sábado, 18 de maio de 2013

Povo: Incertos, mas modernos

Povo: Incertos, mas modernos: RR on-line 17-05-2013 19:52 Raquel Abecasis Acho que os nossos filhos não nos agradecerão no futuro. A contabilidade da votação do pr...

RR on-line 17-05-2013 19:52
Raquel Abecasis

Acho que os nossos filhos não nos agradecerão no futuro.
A contabilidade da votação do projecto lei que abre a porta à co-adopção por casais homossexuais diz tudo sobre a ligeireza e falta de convicção com que passos como este são dados pelos nossos responsáveis políticos.
A lei passou com 99 votos a favor e 94 contra, à votação faltaram 27 deputados, 17 dos quais do PSD. 
Feitas as contas a realidade é esta: o Bloco de Esquerda tem um projecto claro de sociedade que não esconde querer impor ao país; uma parte cada vez maior do Partido Socialista partilha este projecto, mas quer colocá-lo no terreno com pequenos passos para não causar perturbações; todos os outros deixaram de ter convicções ou ideias e estão disponíveis a tudo, incluindo a faltar a uma votação tão importante para o nosso futuro, para não serem apontados como retrógrados. 
Dir-se-á que a culpa é da qualidade dos políticos que temos, mas realmente a culpa é de todos os que, sabendo que estamos a trilhar um caminho errado, preferem não se envolver em discussões incómodas com medo das consequências e assim se vão perdendo as certezas e as convicções.
Com o silêncio e a conivência de muitos milhares estamos a destruir os pilares de uma sociedade que, com todos os defeitos e qualidades, tem cumprido o objectivo de formar homens e mulheres equilibrados e livres, por uma outra que inverte todas as regras para justificar as opções de vida de alguns.
Acho que os nossos filhos não nos agradecerão no futuro.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

a Fé...

Neste ano da Fé, muito se tem escrito.
Nestas breves linhas, não vou acrescentar nada.
Simplesmente rever e relembrar o dom da Fé em mim, em nós, no ser humano que caminha, peregrina.
Dentro desta condição humana, de ser peregrino, de querer mais, a fé surge como um processo.
A fé é um processo. Um processo que passa por uma experiência pessoal com Jesus Cristo.
Existem passos a dar...
Um passo a dar é o despojamento, o esvaziar de nós próprios, que requer uma constante aprendizagem e exercício, atenção.
Só assim podemos receber o dom da fé, que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja (cfr. Porta Fidei, 1).
Um passo a tomar a seguir, é o ir à busca, sairmos de nós próprios. Ter capacidade de silenciar-nos, para abrirmos ao outro, ao Outro...
Um outro passo é o de sentirmos como filhos, condição de filhos perante o criador, perante Deus, o primeiro a amar-nos.
Por fim, um outro passo, que é o de tomar consciência da gratuitidade do gesto / ação de Deus, o primeiro a ir ao nosso encontro.

A fé sem caridade não dá fruto e a caridade sem fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. (Porta Fidei, 14)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O cristão e a política

Acabei de ler um dos livros que me propus nestas férias: Deus de surpresas, de Gerard Hughes.
Um ótimo livro para ler e reler.

No final, ao ler, lembrei-me do momento conturbado, que a sociedade portuguesa vive.
Partilho a transcrição da parte final do referido livro, que me tocou:

"Deus estás em todas as coisas...
É por isso que qualquer espiritualidade que nos isole face ao sofrimento do mundo, ou que declare que a Igreja se deve manter arredada da política e dos problemas de justiça social, é uma espiritualidade falsa e uma idolatria.
É claro que a Igreja nunca poderá identificar-se com nenhum partido político, mas afirmar que a Igreja tem de estar fora da política, significa pretender que o modo como nos relacionamos enquanto seres humanos não pertence ao âmbito da religião.
A política diz respeito a algumas das linhas estruturais em que assenta a nossa relação com os outros seres humanos.
A religião diz respeito ao modo como nos relacionamos com os outros, pois é nessas relações que nos relacionamos com Deus."

Estamos inseridos no mundo, não pertencemos a ele, mas enquanto vivemos, somos chamados a agir... com Deus nos outros.

domingo, 2 de setembro de 2012

Uma princesa ruiva...

A mãe bem lhe diz que «uma senhora deve ser elegante», mas Mérida não a ouve.

Merida vive na Escócia na Alta Idade Média. O pai, o rei, é um grande caçador de ursos. A mãe, o máximo da elegância, beleza e boas maneiras, tenta educar a filha para a vida de uma verdadeira princesa. Mérida prefere antes cavalgar, de cabelo ao vento, e gosta de praticar o arco e flecha. 
É uma maria-rapaz.


O confronto com a mãe é o que permite a verdadeira libertação: torna-nos autónomos, diferentes e permite que cheguemos à idade adulta. Se o bom senso popular reteve da psicanálise que é preciso "matar" o pai - complexo de Édipo -, é necessário recordar-lhe que o perdão à mãe está na origem de todos os perdões. Merida, ao querer desembaraçar-se não da sua mãe mas da sua educação, vai fazer essa dolorosa mas salutar experiência.

Ao se deixarem levar por Merida e pelos seus magníficos cabelos ruivos, as crianças viverão aventuras palpitantes num cenário selvagem, respirando a plenos pulmões um ar de liberdade e emancipação que acompanha a chegada da idade adulta. Os adultos, por seu lado, reencontrarão a complexidade das relações entre mãe e filha e os desafios de toda a educação.

Neste nova ano lectivo que se inicia, nada melhor que ver este filme.
A educação, partindo da sua etimologia, indica um ser que conduz para fora, para a sociedade outro ser, com os desafios daí provenientes.

Link's: http://www.disney.pt/bravehttp://splitscreen-blog.blogspot.pt/2012/08/brave-indomavel-por-carlos-antunes.html;

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Trabalhar para descansar


Agência Ecclesia, 2012-07-31
Tempo livre, tempo de descanso, no comum, férias. O tempo dilatado onde os ponteiros do relógio devem parar para que o equilíbrio seja restabelecido. Um novo fôlego que pode levar à contemplação, criatividade, procura de Deus ou simplesmente ao encontro com o outro. Vasco Pinto Magalhães, sacerdote jesuíta, aborda estes e outros temas, antecipando ainda o seu novo livro, ‘Só avança quem descansa’.
Agência Ecclesia (AE) – Falar em férias implica falar em descanso. Descanso em Deus ou descanso para Deus?
Vasco Pinto Magalhães (VPM) – As duas coisas. Este é um tema de que gosto muito de falar, porque não é nada um tema lateral. Às vezes pensa-se que se descansa para trabalhar, mas eu penso que devíamos trabalhar para descansar. Aliás, acabo agora de escrever um livro, que ainda não está publicado, que tem o título ‘Só avança quem descansa’.
O tempo de férias pode ser muito ambíguo, porque é uma paragem no trabalho que às vezes visa mais o descanso físico e psicológico do que o descanso espiritual. O que nos descansa é o equilíbrio, a boa consciência e não se pode descansar uma parte sem a outra. Muitas vezes não se descansa nada nas férias porque se está cheio de pressa de fazer coisas e depois é um engano, porque a pressa e o medo ou ansiedade tiram-nos qualquer descanso!
AE – Por isso as férias têm de trazer a calma e a serenidade?
VPM  Sim, e portanto não implicam ter de passar por muitos locais extraordinários - que ajudam, porque somos corporais -, mas trata-se mais de uma atitude interior. Estar descansado é estar em paz, em paz consigo mesmo, em paz com os outros: às vezes pode estar-se descansado com muito trabalho.
AE – Nas férias há o convite a cada cristão de descansar em Deus. Há esta consciência da presença de Deus?
VPM – O cristão deveria estar sempre consciente da presença de Deus para viver descansado. Descansar é um treino para o descanso eterno, que é o céu, e esse é o nosso objetivo na vida. O nosso objetivo não é trabalhar, mas sim trabalhar para estar cada vez mais descansado, mais equilibrado, mais saudável, mais em Deus.
Acredito que aquilo que mais nos descansa é uma relação saudável com outra pessoa, o sentir-se amado, o poder ser eu perante uma pessoa sem ter de me estar a defender, a mascarar ou a arranjar conversa, e isso é o que acontece com Deus!
AE – Então o próprio “encontro com o outro” deve ser um momento de descanso?
VPM – Estou convencido que é isso o que mais descansa, assim como a boa consciência, o ter um sentido para a vida. São essas coisas que equilibram e integram, senão há uma grande agitação interior que se torna desgaste. O trabalho, por exemplo, desgasta porque trabalhamos mal, à pressa, em intensidade, horas em quantidade e não em qualidade, sob pressão! O trabalho de que eu gosto e pelo qual sou reconhecido, esse não me cansa!
AE – Deus também descansou ao 7.º dia. No evangelho de Marcos, Jesus convoca: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. Este é o verdadeiro convite para as férias?
VPM – Exatamente e é uma coisa tão bonita! Claro que arranjar um espaço bonito para as férias é equilibrante, mas agora imagine-se que estou cheio de problemas por dentro: por mais bonito que seja o lugar, um passeio à beira mar ou uma serra bonita, se eu estiver cheio de pressa não descanso!
Se eu não estiver inteiro, que é uma das boas maneiras de descansar, então é porque estou dividido. O evangelho também fala nisso: “Marta! Marta! Estás dividida!”. Há coisas que criam ambiente e, como somos corporais, temos de criar o ambiente certo, uma coisa bonita, um bom livro que me faz encontrar comigo próprio, com a minha história, que me liga a cabeça e o coração. Tudo aquilo que integra a pessoa e relaciona bem faz descansar.
AE – Qual a melhor atitude para partir para férias?
VPM – Primeiro que tudo, saber o que eu quero fazer, marcar prioridades e sobretudo não entrar em competição nem em consumismos, mas realmente aproveitar bem todos os bocadinhos para se encontrar consigo mesmo. E ao encontrar-me comigo mesmo encontro-me com Deus, no sentido de me encontrar com o amor, porque Deus é amor!
AE – Há vários sítios para onde podemos ir nas férias: na praia, no campo, nas peregrinações ou em viagem…
VPM – Sim, todos servem para encontrar Deus, basta estar inteiro, ter ultrapassado a mentalidade do negócio, da pressa. Porque se estou na ânsia das fotografias, de riscar este museu e o outro e correr para ver mais este ou aquele monumento, então não descanso. Tem de se acabar com esse sufoco, apreender aquilo a que os antigos chamavam ócio, que não é estar sem fazer nada, mas sim estar contemplativo.
Aqui chega-se à importância do tempo livre, se for tempo de liberdade. Nos anos 60 chegávamos ao lazer e tempo livre mas, depois, estes foram esgotados pelo consumismo e pela competição. Uma pessoa pensa que é mais feliz se tiver muito dinheiro, se fizer muitas viagens e muita coisa, o que a leva a desintegrar-se e espalhar-se por várias coisas.
AE – As férias são, por isso, uma quebra na rotina e nos tempos ritmados de pressa e horários.
VPM  Sim, põe-me equilibrado, num equilíbrio dinâmico. Para um cristão, que descansa em Deus, equilíbrio não é ataraxia dos gregos ou nirvana hindu, isso seria realmente parar tudo e nem pensar em nada – o que às vezes ajuda, até um bocadinho de yoga podia ajudar.
Há pessoas para quem o descanso é uma correria: andar quilómetros ou ver os filmes todos que perderam. Então, tudo é transformado em ansiedade.
Eu dizia que o equilíbrio é dinâmico, não é uma paragem no sentido de “não me vou mexer”, ou “vou dormir”. Pode ser um engano, por exemplo, um retiro espiritual que pode ser um grande descanso ou uma grande ansiedade, se houver grandes decisões a tomar, não me situei no amor ou no sentido da vida.
AE – É nas férias que encontramos momentos de fraternidade, a família, os amigos de sempre e os que estão mais longe. Esta é outra forma de descanso?
VPM – Sim, porque no tempo de trabalho, infelizmente, as pessoas não têm tempo para ser gente, não têm tempo para a relação, não há tempo para as coisas mais básicas, comem à pressa, dormem à pressa, falam à pressa, não ouvem…
Depois há desgaste, claro, mas também é verdade que cada um tem tempo para aquilo que quer, só que às vezes temos as prioridades mal arrumadas; se eu quero mesmo uma coisa então tenho tempo para ela!
AE – Que prioridades mal arrumadas são essas? O que é que não nos deixa partir para férias?
VPM  A ansiedade interior e a pressa, mas as principais causas são as atitudes interiores. Claro que um mal de saúde ou uma doença grave na família nos causa preocupação, mas não significa que nos tire a atitude de estar equilibrado, descansado. Santo Agostinho dizia que “a paz é a tranquilidade na ordem” e o descanso é a mesma coisa.
AE – O tempo de descanso é também uma paragem para ver e contemplar a beleza e a beleza na fé?
VPM – Sim, esse é um tema importante. A beleza descansa muito, desde a beleza natural, a beleza das ações à beleza do pensamento criativo…
A beleza também é ordem, é o esplendor do ser, o esplendor da conjugação de todos os aspetos que me fazem levar ao êxtase, à contemplação. Hoje somos pouco contemplativos, vemos muitas coisas mas não entramos nelas. Uma coisa é olhar para o mar ou olhar do alto de uma montanha, outra coisa é “entrar” na paisagem, para que possa fazer parte de mim. Senão somos todos um pouco “voyeurs”: cheguei, vi e parti mas nada fica, não há tempo para entrar na realidade.
AE – Faz falta termos tempo para contemplar, ver e sentir?
VPM  Exatamente. O livrinho de que falei, que estou a escrever, começou como um ensaio com o título “gestão do tempo”. Realmente não somos educados para gerir o tempo. O tempo livre é uma coisa que fica para as sobras ou para os intervalos; ora acho que tem de ser o contrário. O dia forte tem de ser o domingo, descansar para depois trabalhar.
AE – Essa falta de tempo leva à falta de fé?
VPM – Leva ou então leva a uma fé angustiada que cansa muito, também. Como é que se tem tempo para Deus? Uma vez ouvi dizer que “rezar é perder tempo com Deus” e é tão bonito isto, perder tempo, que não o é, é ganhar tempo. As pessoas não valorizam tudo aquilo que não está a ser economizado ou não tem sucesso económico. Não valorizam o gratuito, o tempo em si, o próprio viver.
AE – As férias podem ser a oportunidade para essa busca?
VPM – Eu penso que devia ser isso mesmo, encontrar esse espaço onde eu me torno mais eu e eu; onde sou eu nas relações, na comunhão, mas também com tempos para estar só. É também importante a conversa interior, tranquilamente comigo próprio, para me autoconhecer e me pacificar. Ao equilibrar a respiração, equilibro o pensamento e ele começa a lidar bem com o coração.
AE – Há vários tipos de férias, aqui falávamos de férias associadas ao verão, que trazem uma luz e um calor diferentes, que nos transformam.
VPM  Para nós latinos, sobretudo… Nos países nórdicos, por exemplo, fazem férias de inverno para poder ir para a neve, que é outro tipo de férias, de experiências, de passar o tempo, de descansar. Mas o segredo está na atitude.
Claro que a mim me ajuda imenso o calor, gosto muito de praia, de montanha, mas também de uma varanda, um prato de percebes e o mar à vista… (risos)
AE – São coisas como essas, simples, que temos de trazer para as férias?
VPM  Sim, a boa companhia de um livro ou de um pensamento que me envolve, de uma paisagem que me alarga o coração, que me faz não sentir sem sentido. Há pessoas que não conseguem descansar porque a sua própria vida não tem sentido, é uma correria. Criámos uma sociedade de stress, muito deprimida, e por isso vive em descansos, curas de sono, pastilhas e tudo mais… Tudo porque nos satisfazemos pela quantidade e não pela qualidade.
AE – O tempo livre podia ser a solução para deixar muitas caixas de comprimidos?
VPM – Exato, por isso é que eu acho que nós precisamos de feriados, de férias… Quanto mais feriados, melhor trabalhamos, ao contrário do que se pensa. Julgar que por estar mais horas no trabalho se trabalha melhor é um erro. Há muita coisa acumulada e por isso é que há pessoas que quando entram de férias, na primeira semana, têm de parar a “onda” que as persegue.
É bom trabalhar para ir de férias, sem ver o trabalho só como o que é produtivo ou negócio. Rezar também é uma forma de trabalho, relacionar-se com os outros é outra forma. O desgaste físico é muito relativo.
Por exemplo, uma coisa que me descansa muito é mexer no barro, mas gera-me também tensão. Estou sempre à espera de ter tempo para moldar, fazer alguma coisa de novo e sinto a tensão criativa do que vai sair ou da concretização de uma imagem. Mas depois dá-me a sensação de descanso, que me equilibra, por algo que criei.
 AE – Moldar o barro é um exemplo do que faz nas férias. Que outras coisas deixa para fazer em tempo de descanso?
VPM – Guardo livros que não tive tempo para ler, conversas e alguns tempos de comunicação com a natureza que, no dia a dia, se tornam impossíveis. Predisponho-me também a viajar, principalmente quando são destinos que me preenchem vazios, tempos de conhecimento e maior ligação ao mundo. Estes espaços e momentos que me humanizam são o mais necessário nas férias.
São férias com afetos, os afetos não fazem férias… E também é preciso equilibrá-los porque andam deprimidos ou exaltados e é preciso vê-los como um todo a caminho de uma plenitude. Esta plenitude vem com a comunhão, maior comunhão comigo próprio e melhor com os outros.

(in POVO)